A cefaleia como sintoma de decisão
Cerca de 2 a 4% dos atendimentos de pronto-socorro têm cefaleia como queixa principal, e a grande maioria é primária e benigna. O trabalho do plantonista não é aliviar a dor — é decidir, com anamnese e exame físico, quem entra no tomógrafo, quem vai para a punção lombar e quem precisa do neurocirurgião hoje. Este módulo é esquematizado de propósito: não reproduz diretriz, organiza a decisão.
1.1 Anamnese: as sete perguntas que decidem›
| Pergunta | O que você está procurando |
|---|---|
| Em quanto tempo chegou ao pico? | Pico < 1 minuto = thunderclap → HSA até prova em contrário. Horas a dias = massa, TVC, infecção. |
| É a pior da vida / é diferente das outras? | Mudança de padrão em cefaleia crônica vale tanto quanto cefaleia nova. |
| Primeira vez com essa dor? | Cefaleia nova após os 50 anos é secundária até prova em contrário. |
| Muda com a posição? | Pior deitado/ao acordar = hipertensão intracraniana. Pior em pé, alívio deitado = hipotensão liquórica. |
| Piora com Valsalva, tosse, esforço? | Lesão de fossa posterior, Chiari, HIC. |
| O que veio junto? | Febre, rigidez de nuca, déficit, crise, alteração visual, papiledema, náusea/vômito em jato. |
| O que você já tomou? | Uso excessivo de analgésico, anticoagulante, triptano, contraceptivo, retinoide, tetraciclina. |
1.2 Bandeiras vermelhas — SNNOOP10›
Cada item isolado tem valor limitado; o conjunto é que muda a probabilidade pré-teste. Presença de qualquer um justifica neuroimagem.
- S Sintomas sistêmicos — febre, perda de peso, calafrios
- N Neoplasia — história de câncer
- N Neurológico — déficit focal, confusão, crise, rebaixamento
- O Onset súbito — thunderclap
- O Older — início após 50 anos
- P Padrão — mudança de padrão ou dor progressiva
- P Posicional — piora deitado ou em pé
- P Precipitada por tosse, espirro, esforço, sexo
- P Papiledema — o único red flag que só o exame revela
- P Puerpério/gravidez, Pares cranianos com disautonomia (olho doloroso), Pós-trauma, imunossupressão/HIV, abuso de analgésico
2.1 Migrânea›
Critérios ICHD-3 — migrânea sem aura
Aura típica
- Sintomas positivos seguidos de negativos: escotoma cintilante, espectro de fortificação, depois escotoma.
- Marcha de sintomas em 5–60 min — é isso que separa aura de AIT (que é instantâneo e negativo desde o início).
- Totalmente reversível; a cefaleia segue a aura em até 60 min (ou não vem: aura sem cefaleia).
- Aura motora = migrânea hemiplégica; tronco = migrânea com aura do tronco encefálico (não usar mais "basilar").
Tratamento da crise no PS
| Droga | Dose | Observação |
|---|---|---|
| Metoclopramida | 10 mg IV lento | Antiemético e analgésico. Difenidramina reduz acatisia. |
| Clorpromazina | 0,1 mg/kg IV | Hidratar antes — hipotensão. |
| Dipirona | 1–2 g IV | Primeira linha no Brasil. |
| Cetoprofeno | 100 mg IV | Cuidado renal e gástrico. |
| Sumatriptano | 6 mg SC | Contraindicado em coronariopatia, HAS não controlada, aura de tronco/hemiplégica, gestação. |
| Dexametasona | 4–10 mg IV | Reduz recorrência em 24–72 h; não trata a crise. |
| Sulfato de magnésio | 1–2 g IV | Melhor evidência na crise com aura. |
2.2 Tensional, salvas e as outras primárias›
| Quadro | Duração | Marca registrada | Tratamento |
|---|---|---|---|
| Tipo tensional | 30 min – 7 d | Bilateral, em aperto/peso, leve a moderada, não piora com atividade, sem náusea | Analgésico simples, AINE; evitar cronificação |
| Salvas (cluster) | 15–180 min | Unilateral orbitária/temporal, excruciante, agitação psicomotora, autonômicos ipsilaterais (lacrimejamento, rinorreia, ptose/miose, edema palpebral), periodicidade circadiana | O₂ 100% 12–15 L/min em máscara não reinalante por 15 min + sumatriptano 6 mg SC; transição com prednisona ou bloqueio occipital; profilaxia com verapamil |
| Hemicrania paroxística | 2–30 min | Mesmo padrão das salvas, mais curta e mais frequente (>5/dia) | Resposta absoluta à indometacina — é critério diagnóstico |
| SUNCT / SUNA | 1–600 s | Dezenas a centenas de crises/dia, hiperemia conjuntival e lacrimejamento | Lamotrigina; lidocaína IV na crise refratária |
| Neuralgia do trigêmeo | < 2 s, em salvas | Choque em V2/V3, gatilho cutâneo (falar, mastigar, vento) | Carbamazepina/oxcarbazepina; RM para excluir compressão vascular e placa desmielinizante |
Cefaleia por uso excessivo de medicação: ≥15 dias/mês de analgésico simples ou ≥10 dias/mês de triptano/combinação/opioide por >3 meses, em paciente com cefaleia ≥15 dias/mês. O tratamento é a retirada — e a piora inicial faz parte.
3 Hemorragia subaracnóidea›
Regra de Ottawa para HSA — quando investigar
Aplicável apenas a: ≥15 anos, cefaleia nova, não traumática, com pico em até 1 h, sem déficit neurológico. Não se aplica a cefaleia recorrente de padrão conhecido nem a paciente com déficit.
- Idade ≥ 40 anos
- Dor ou rigidez cervical
- Perda de consciência testemunhada
- Início durante esforço
- Cefaleia em trovoada (pico instantâneo)
- Limitação da flexão cervical ao exame
Nenhum presente → investigação dispensável (sensibilidade ~100%). Qualquer um presente → investigar. A regra é sensível, não específica: serve para não deixar passar, não para confirmar.
A janela das 6 horas
| Tempo do ictus | Sensibilidade da TC sem contraste | Conduta |
|---|---|---|
| < 6 h | ≈ 100% | TC normal + exame normal: HSA praticamente excluída (exige tomógrafo moderno e laudo de radiologista) |
| 6–24 h | ≈ 90% | TC normal não exclui → punção lombar ou angio-TC |
| > 24 h | 85% → 50% em 1 semana | Punção lombar com busca de xantocromia |
Punção lombar — como não se enganar
- Colher após 6–12 h do ictus: a xantocromia depende da degradação da hemoglobina e pode ser negativa antes disso.
- Três tubos: na HSA a contagem de hemácias não cai entre o primeiro e o último; no acidente de punção, cai.
- Xantocromia (sobrenadante amarelo após centrifugação) é o achado mais específico — idealmente por espectrofotometria.
- Medir a pressão de abertura sempre: é de graça e diagnostica HIC idiopática e TVC.
- Excluir massa/HIC antes se houver déficit focal, papiledema, rebaixamento ou imunossupressão.
Escalas
Hunt-Hess — clínica
Fisher modificada — risco de vasoespasmo
WFNS combina Glasgow e déficit motor: I ECG 15 · II 13–14 sem déficit · III 13–14 com déficit · IV 7–12 · V 3–6.
Manejo e complicações
| Complicação | Quando | Conduta |
|---|---|---|
| Ressangramento | Pico nas primeiras 24 h | Tratar o aneurisma em até 24–72 h (clipagem ou embolização); PAS <160 mmHg até excluir; analgesia eficaz; repouso |
| Hidrocefalia aguda | Horas a dias | Rebaixamento do nível de consciência + ventriculomegalia → derivação ventricular externa |
| Vasoespasmo / isquemia tardia | Dia 4–14, pico 7–10 | Nimodipina 60 mg VO 4/4 h por 21 dias (neuroproteção, não vasodilatação); euvolemia; doppler transcraniano seriado; angioplastia nos refratários |
| Hiponatremia | Dias | Diferenciar SIADH (euvolêmico, restrição hídrica) de perda cerebral de sal (hipovolêmico, repor volume e sódio). Nunca restringir volume às cegas na HSA |
| Síndrome de Terson | Agudo | Hemorragia intraocular (sub-hialoide/vítrea) por elevação súbita da PIC — vê-se no fundo de olho e associa-se a pior prognóstico |
4 Hidrocefalia›
Como classificar
- Obstrutiva (não comunicante) — bloqueio dentro do sistema ventricular: estenose de aqueduto, tumor de fossa posterior, colóide do III ventrículo, cisto. Dilatação a montante do obstáculo.
- Comunicante — falha de absorção ou excesso de produção: pós-HSA, pós-meningite, carcinomatose, papiloma de plexo coroide.
- Aguda (HIC instalada, emergência) × crônica (compensada) × de pressão normal.
Sinais de HIC aguda
- Cefaleia matinal, que acorda o paciente e piora deitado
- Vômitos em jato, sem náusea precedente
- Papiledema — pode faltar nas primeiras horas
- Paralisia do VI par — falso localizatório (diplopia horizontal)
- Sinal do sol poente e Parinaud (compressão do teto mesencefálico)
- Rebaixamento do nível de consciência
- Tríade de Cushing (hipertensão + bradicardia + respiração irregular) — sinal tardio, de herniação iminente
O que a TC precisa mostrar
- Índice de Evans > 0,30 — maior distância entre os cornos frontais ÷ maior diâmetro interno do crânio no mesmo corte.
- Arredondamento dos cornos frontais e abaulamento do III ventrículo.
- Cornos temporais visíveis — em adulto normal são virtuais.
- Hipodensidade periventricular (transudação transependimária) — marca de hidrocefalia aguda/descompensada.
- Apagamento de sulcos e das cisternas da base.
Nunca puncione liquor na hidrocefalia obstrutiva. Na suspeita de HIC com lesão expansiva ou hidrocefalia não comunicante, a punção lombar precipita herniação. A via é a derivação ventricular externa.
Hidrocefalia de pressão normal: tríade de Hakim-Adams — apraxia de marcha (magnética, primeiro sintoma e o que melhor responde), incontinência urinária e declínio cognitivo subcortical. Diagnóstico com Evans >0,3, DESH e tap test (punção de 30–50 mL com avaliação de marcha antes e depois).
5 Hipertensão intracraniana›
Física da caixa fechada
Monro-Kellie
Parênquima + sangue + liquor ocupam volume fixo dentro do crânio. Qualquer acréscimo é inicialmente compensado por expulsão de liquor e de sangue venoso; esgotada a complacência, pequenos volumes produzem grandes saltos de pressão — o joelho da curva pressão-volume.
PPC = PAM − PIC
PIC normal no adulto: 5–15 mmHg (7–20 cmH₂O). Tratar acima de 20–22 mmHg.
Ondas de Lundberg
- A (plateau) — 50–100 mmHg por 5–20 min. Complacência esgotada. Patológica sempre.
- B — 20–50 mmHg, 0,5–2/min. Instabilidade vasomotora.
- C — 4–8/min, baixa amplitude, pouco significado.
Hipertensão intracraniana idiopática — critérios (Friedman, Dandy modificados)
- Papiledema (ou, na sua ausência, paralisia do VI par bilateral + achados de imagem).
- Exame neurológico normal, exceto paralisia de nervos cranianos.
- Neuroimagem normal — sem hidrocefalia, massa, lesão estrutural ou realce meníngeo, e com venografia normal (a TVC é o grande impostor).
- Composição do liquor normal.
- Pressão de abertura ≥ 25 cmH₂O em adultos (≥ 28 em crianças), em decúbito lateral, com pernas estendidas e paciente relaxado.
Perfil e gatilhos
- Mulher jovem com sobrepeso e ganho recente de peso
- Tetraciclinas (doxiciclina, minociclina)
- Vitamina A e retinoides (isotretinoína)
- Retirada de corticoide; hormônio de crescimento; lítio
Sintomas que você precisa perguntar
- Obscurecimentos visuais transitórios — segundos de escurecimento, frequentemente ao mudar de posição. Sinal de risco visual.
- Zumbido pulsátil síncrono com o pulso
- Diplopia horizontal (VI par)
- Perda visual progressiva — aumento da mancha cega e constrição periférica antes da acuidade central
Tratamento: perda de peso é o único modificador de doença; acetazolamida (titular até 1–4 g/dia) ± topiramato; retirar o agente causal. Perda visual rápida é emergência cirúrgica: fenestração da bainha do nervo óptico (protege a visão) ou derivação lomboperitoneal/ventriculoperitoneal (trata a cefaleia); stent de seio transverso em casos selecionados com gradiente de pressão.
Trombose venosa cerebral — o impostor
- Cefaleia é o sintoma mais comum e pode ser o único em ~25% dos casos.
- Suspeitar em: puerpério e gestação, anticoncepcional, trombofilia, desidratação, neoplasia, infecção de face/mastoide, COVID e pós-punção.
- TC sem contraste: sinal do cordão denso (seio hiperdenso), hiperdensidade espontânea do seio. Com contraste: sinal do delta vazio.
- Infartos que não respeitam território arterial, frequentemente hemorrágicos e com edema desproporcional; hemorragia parenquimatosa justacortical bilateral parassagital.
- Anticoagulação plena mesmo na presença de hemorragia — a hemorragia é consequência da trombose.
- Confirmar com angio-RM/angio-TC venosa. D-dímero normal não exclui, sobretudo na cefaleia isolada.
Herniações — reconhecer pelo exame
| Herniação | Sinal clínico |
|---|---|
| Uncal | Midríase e ptose ipsilateral (III par), hemiparesia contralateral, rebaixamento. Hemiparesia ipsilateral = entalhe de Kernohan (falso localizatório). |
| Central diencefálica | Deterioração rostrocaudal, pupilas médias fixas, Cheyne-Stokes, decorticação → descerebração. |
| Subfalcina | Desvio de linha média, compressão da artéria cerebral anterior, paraparesia. |
| Tonsilar | Rigidez de nuca, torcicolo, apneia, parada respiratória súbita. A punção lombar é o gatilho clássico. |
6 Diferenciais que não podem passar›
| Diagnóstico | Pista | Ação imediata |
|---|---|---|
| Arterite de células gigantes | >50 anos, dor temporal, artéria temporal endurecida e dolorosa, claudicação de mandíbula, amaurose fugaz, polimialgia, VHS/PCR altos | Corticoide imediato, antes da biópsia. A cegueira é irreversível e bilateraliza em dias |
| Meningite bacteriana | Febre + cefaleia + rigidez de nuca ± alteração do sensório; petéquias | Antibiótico na primeira hora — antes da TC e da punção, se houver demora |
| Glaucoma agudo de ângulo fechado | Dor ocular intensa, olho vermelho, pupila em midríase média fixa, halos, náusea, córnea turva | Oftalmologia de urgência; não dilatar a pupila |
| Dissecção carotídea/vertebral | Cervicalgia + cefaleia após trauma ou manipulação; Horner doloroso; sintomas isquêmicos | Angio-TC/RM de vasos cervicais |
| Intoxicação por monóxido de carbono | Cefaleia + náusea em vários moradores da mesma casa; SpO₂ normal engana | O₂ 100%; dosar carboxi-hemoglobina |
| Hipotensão liquórica | Cefaleia ortostática, pós-punção ou espontânea | Decúbito, hidratação, cafeína; blood patch se persistir |
| Pré-eclâmpsia/eclâmpsia | Gestante >20 semanas, cefaleia + escotomas + hipertensão + proteinúria | Sulfato de magnésio, controle pressórico, obstetrícia |
| SVCR (vasoconstrição cerebral reversível) | Thunderclap recorrente em dias, gatilhos (banho, esforço, sexo, vasoativos, puerpério) | Angio-TC/RM seriada; retirar vasoativos; nimodipina |
| Apoplexia hipofisária | Thunderclap + oftalmoplegia + queda visual bitemporal ± hipotensão | RM de sela, corticoide em dose de estresse, neurocirurgia |
O exame que decide a tomografia
A neuroimagem confirma o que o exame já suspeitou. Cada estação abaixo é uma manobra que muda conduta em cefaleia — a técnica, o que se procura e o que o achado significa.
Pupilas e motricidade ocular
Escolha o caso, acenda a lanterna em cada olho e peça as versões. O boneco responde como o paciente responderia.
A Sinais meningorradiculares›
| Manobra | Técnica | Significado |
|---|---|---|
| Rigidez de nuca | Paciente em decúbito dorsal, relaxado; flexão passiva do pescoço. Testar rotação lateral — na rigidez meníngea a rotação é livre e a flexão é limitada e dolorosa; na artrose cervical, ambas limitam. | Irritação meníngea: meningite, HSA. Ausente em até 30% das meningites e nas primeiras horas da HSA — a ausência não exclui. |
| Kernig | Quadril e joelho fletidos a 90°; extensão passiva do joelho. | Presente quando há resistência e dor com limitação da extensão. |
| Brudzinski | Flexão passiva do pescoço. | Presente quando há flexão involuntária de quadris e joelhos. |
| Acentuação pela rotação (jolt accentuation) | Pedir que gire a cabeça horizontalmente 2–3 vezes por segundo. | Piora acentuada da cefaleia sugere inflamação meníngea. Sensível, pouco específico. |
| Lasègue | Elevação do membro estendido. | Radicular/meningorradicular; útil na diferenciação com lombalgia mecânica. |
B Fundo de olho — técnica›
- Sala escura, paciente fixando um ponto distante. A midríase fisiológica do escuro costuma bastar.
- Olho direito do examinador para o olho direito do paciente, mão direita, aproximando-se por ~15° temporal ao eixo visual — é assim que a papila entra no campo.
- Começar com +8 a +10 dioptrias a ~15 cm para ver o reflexo vermelho e opacidades; depois reduzir progressivamente até focar a retina, aproximando-se a 2–3 cm.
- Não use midriático se as pupilas ainda forem parâmetro de seguimento neurológico. Se usar, registre em prontuário e avise a equipe.
- Sequência: papila (bordas, cor, escavação) → vasos (calibre, cruzamentos, pulso venoso) → retina (hemorragias, exsudatos) → mácula.
C Crânio, face e pescoço›
- Artéria temporal superficial: palpar bilateralmente — endurecimento, nodulação, dor e ausência de pulso sugerem arterite de células gigantes em paciente acima de 50 anos.
- Pontos de emergência do trigêmeo e nervo occipital maior (medial à mastoide, no terço medial da linha nucal): dor à palpação com irradiação sugere neuralgia occipital.
- Seios da face, ATM, musculatura pericraniana: dor à palpação sustenta tensional e cefaleia cervicogênica.
- Ausculta de crânio e órbitas: sopro em fístula dural e MAV.
- Pele: petéquias (meningococcemia), manchas café-com-leite, estigmas de neurofibromatose.
D Manobras provocativas e exame geral›
- Teste postural: medir a dor deitado e após 10 min em pé. Piora em ortostase = hipotensão liquórica; piora em decúbito = hipertensão intracraniana.
- Valsalva / tosse: piora sugere lesão de fossa posterior, Chiari, HIC.
- Pressão arterial nos dois braços e temperatura sempre. Glicemia capilar em todo rebaixamento.
- Fundoscopia + nível de consciência + pupilas formam o tripé de PIC à beira do leito.
- Na gestante >20 semanas: PA, proteinúria e reflexos — pré-eclâmpsia entra no diferencial de toda cefaleia.
Oftalmoscópio
Campo estreito, como no aparelho real: arraste para varrer o fundo e ajuste a dioptria até a papila entrar em foco. A graduação de Frisén é o vocabulário — use-a no prontuário em vez de "papiledema +/4".
Escala de Frisén — graduação do papiledema
| Grau | Critério definidor |
|---|---|
| 0 | Disco normal. Borramento apenas dos polos nasal e temporal, acompanhando a saída das fibras. Escavação visível. |
| 1 | Halo em C — borramento nasal com abertura temporal. Escavação ainda preservada. |
| 2 | Halo circunferencial completo, elevação da borda nasal. Escavação ainda presente. |
| 3 | Obliteração de um ou mais segmentos de grandes vasos ao deixarem o disco; halo com borda externa irregular e digitiforme; diâmetro do disco aumentado. |
| 4 | Obliteração total de um grande vaso sobre o disco; elevação de toda a cabeça do nervo; escavação obliterada. |
| 5 | Disco em cúpula; obliteração de todos os vasos sobre e ao deixarem o disco; halo estreito e liso. |
O critério de Frisén é obliteração vascular, não elevação subjetiva — por isso ele é reprodutível entre examinadores e "cruz" não é.
Papiledema × pseudopapiledema
| Papiledema | Drusas de papila | |
|---|---|---|
| Bordas | Borradas, halo acinzentado | Irregulares, "lobuladas", sem halo |
| Cor | Hiperemia | Sem hiperemia |
| Hemorragias | Podem estar presentes | Ausentes |
| Vasos | Ingurgitamento venoso, obliteração | Emergência anômala, trifurcações |
| Pulso venoso | Ausente | Habitualmente presente |
| Confirmação | Medir a PIC | Autofluorescência, US ocular, OCT |
O que mais procurar no fundo
- Hemorragia sub-hialoide — coleção pré-retiniana com nível superior horizontal: síndrome de Terson, marca de elevação súbita da PIC (HSA).
- Hemorragias em chama de vela — camada de fibras nervosas; papiledema agudo, hipertensão maligna.
- Manchas algodonosas — microinfartos da camada de fibras.
- Estrela macular de exsudatos duros — retinopatia hipertensiva grau IV.
- Palidez de papila com bordas nítidas — atrofia óptica: papiledema crônico já lesou o nervo.
Console de tomografia
Cortes axiais sintetizados a partir de um mapa de unidades Hounsfield — a janela e o nível agem sobre os valores reais, como no console. Percorra os cortes, troque a janela e meça o índice de Evans você mesmo.
Sistemática de leitura — sangue, cisternas, cérebro, ventrículos, osso
- Sangue — hiperdenso agudo (50–70 UH). Procure nas cisternas da base, fissuras silvianas, inter-hemisférica, sulcos e ventrículos.
- Cisternas — perimesencefálica, supraselar, quadrigeminal. Apagamento = HIC/herniação.
- Cérebro — simetria, diferenciação córtico-subcortical, desvio de linha média, apagamento de sulcos.
- Ventrículos — tamanho, simetria, cornos temporais, hipodensidade periventricular.
- Osso e partes moles — fraturas, níveis em seios, tumefação.
Densidades de referência
| Estrutura | UH |
|---|---|
| Ar | −1000 |
| Gordura | −100 a −50 |
| Liquor | 0 a 10 |
| Substância branca | 22 a 32 |
| Substância cinzenta | 32 a 42 |
| Sangue agudo | 50 a 70 |
| Osso | > 700 |
Anemia grave pode tornar o sangue agudo isodenso ao parênquima; coagulopatia produz nível líquido-líquido dentro do hematoma.
Plantão de cefaleia
Um paciente por vez, com começo, meio e fim. Cada conduta consome tempo e vale pontos; exame desnecessário custa. O botão Discussão com staff entrega a conduta certa — e desconta.
Caso clínico e raciocínio
Formato ENAMED e provas de residência: vinheta clínica, cobrança indireta, mais de um conceito por questão. A explicação vem depois da resposta, com o porquê de cada alternativa errada.
Referências bibliográficas
O conteúdo dos módulos anteriores apoia-se nas fontes abaixo. Todas foram conferidas no PubMed em setembro de 2026; cada item traz o link do DOI ou do registro PubMed.
Classificação e abordagem no pronto-socorro
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Outras cefaleias secundárias
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Obras de referência
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- Ropper AH, Samuels MA, Klein JP, Prasad S. Adams and Victor's Principles of Neurology. 12ª ed. Nova York: McGraw-Hill; 2023.
Como citar esta ferramenta
De Muzio SDC. HeadacheSim: simulador de cefaleias no pronto-socorro — semiologia, fundo de olho e tomografia de crânio. NeuroLab 3D, Escola Paulista de Medicina/Unifesp; 2026.
ORCID 0000-0002-1405-0354